MEDITAÇÕES-XXVI-PRIMEIRO LIVRO-ALADIN
SEXTO CAPÍTULO - BURGUESIA (págs. 44-45)
1- Burguês é o habitante da cidade. Essa palavra é muito explicativa. Ela mostra a oposição entre comércio e ofícios, sobretudo a diferença com o trabalho no campo. A oposição natural entre burgueses e camponeses, nestes, incluiu os lenhadores, e daí os carvoeiros também de minas. O burguês se caracteriza pelo uso do sistema de persuadir, convencer ou fazer-se acreditar no ato de vender alguma coisa. (NB. Vender vaga no paraíso e loterias). Foi um passo para o desenvolvimento das técnicas de venda. (Fenícios, árabes, mascates, bodegueiros, navegantes ibéricos, piratas e corsários). Voltando à categoria dos usuários da arte de persuadir, Alain nela incorpora lojistas, professores, padres, pastores, advogados, ministros e outros. Esses, continua o autor, não mudam nada na face da terra e nem transportam ou carregam mercadorias (?). Não são os objetos produzidos que se enfrentam com os burgueses, mas outras pessoas humanas. Desse embate nascem e renascem espantosos prejuízos e preconceitos que, na raiz, configuram a permanência da infância no adulto. O burguês se aperfeiçoa na arte comandar seus empregados ou serviçais e nutrisses. Esta é também a habilidade peculiar dos soberanos. E nesse caso se trata de uma infância mais competente que usa uma vara de condão mais apropriada.
2- O espetáculo do lançamento de uma pedra fundamental e suas implicações é significativo. A fala do ministro, primeira pedra, o mestre de obra deslumbrante, tudo sob comando de palavras. A força verbal carrega pedras, cimento, ferro, madeira e outros instrumentos. Nesse exercício da profissão de ministro não se aprende nada sobre a produção de material para o empreendimento. Porque se fica embevecido com os contos de fadas? Para algumas pessoas, um edifício se ergue apenas por uma ordem, um decreto. Na caixa da pedra fundamental, depositam-se moedas. Elas são a representação ou o sinal. Esta mágica é real; “payer n’instruit pas”. Instruir e pagar são cozinhar o alimento dos ceifadores e transportá-los. Aplaude-se a criança que ajuda a babá, levando à mesa o saleiro ou uma colher de sopa. Assim é o burguês, sempre tangenciando o real.
3- Nós todos fomos burgueses, até os filhos de operários e camponeses, quando crianças. E o operário volta à posição infantil, quando ele (“se marchande”) regateia o valor do salário, pois está usando a técnica da persuasão (ameaça?). Não estou falando de negociantes ou de líderes sindicais, porque eles são burgueses completos, justamente no momento em que pretendem não serem os tais. Essa mistura de ficções com realidade, consequência dessa duplicidade, encerra o segredo de todas as (nossas?) desavenças. Todas as guerras são religiosas, mas todos os devotos contestam essa afirmação. É preciso saber o quê nos leva naturalmente a enganos e a causa desses estragos.
4- O próximo encontro é sobre essa pergunta. Viegas.
segunda-feira, 14 de março de 2011
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