segunda-feira, 9 de maio de 2011

MEDITAÇÕES XXXI-

MEDITAÇÕES-XXXI-PRIMEIRO LIVRO-ALADIN
SÉTIMO CAPÍTULO – O MEDO (CONT. págs. 50-52)
Um relato é sempre enganoso. E a análise das causas dessa atitude nos guia na direção dos deuses. Não há nada que provoque mais medo do que uma narração. Não se requer que as coisas descritas estejam presentes. É melhor que estejam ausentes. Basta que as percepções estejam embaralhadas para que se acredite ver ou se tema ver, como aconteceu na Vigília da Roça, quando o candeeiro mal iluminava os presentes e o local. Via-se bem apenas o narrador e todos assimilavam facilmente os afetos que ele expressava. Por isso acreditava-se em qualquer coisa que se dizia. A vigília do Médico da Roça (Médicin de Cammppagne) descreve muito bem esse teatro e é mais comovente que os monstros dos teatros. Mas, além do conto heróico, que rodeias as histórias corriqueiras, pode-se aprender mais sobre o poder da narração, lendo A CORCUNDA CORAJOSA (La bossue courageuse), do mesmo episódio. A descrição, partindo do verossímil e ultrapassando o medo pela coragem, chega aos limites do pavor, na calma reencontrada após um perigo real. A cabeça e os membros do homem assassinado despencam sobre a panela,através da chaminé. Seria útil contrastar essa história com a dos grous de Ibycos (Les Grues d´Ibycos) onde, por outro lado, o desenrolar dos acontecimentos é natural e como tal se apresenta. O deus que pune está presente no culpado. Seria bom procurar esses respeitáveis testemunhos ou provas, sabendo claramente que se encontrará o nexo com os deuses, por sequência. Fique claro que religião não se esquarteja e que por isso deuses e diabos estão todos juntos, como barriga, peito e cabeça não se separam, se assim se pode dizer. Entenderam?
2. Voltemos à solidão da floresta onde o medo é experimentado sem os recursos da arte. Nas costas o homem não tem olhos para ver e nem armas para se defender. E, pela frente, em plena luz, vê apenas um lado da árvore. Se houver alguma fera, ela aparece num instante. E, algumas vezes, um animal ou lobo não passam de galhos de árvores balançando suas folhas. Essa comparação pode ajudar? Dizer que a aparição de um monstro a excitar as entranhas do solitário caminhante não passa de um balançar de galhos é uma prova ambígua, pois o GENIO MALÍGNO (Malin Genie) de Descartes, a pervagar todos os nossos pensamentos, pode comprazer-se em nos desenganar. O importante é o estado da questão. Ele se situa no debate entre o espírito e um mundo sempre insuficiente (insuffisant). (Botando a culpa no mundo?!?!). A experiência infantil é ingenuamente procurada e jamais demonstra alguma coisa. A discussão humana é a seguinte: Nós procuramos a verdade e depois de uma decantação de pensamentos, podemos encontrá-la em nós mesmos. Esse é o significado do exorcismo. Mas é preciso que antes o homem acredite no seu próprio espírito. O exorcismo nos acalma e nos remete a poderes invisíveis, escondidos atrás das árvores. E em Fedro, em outro tipo de exorcismo, quase aparecem deuses terrenos, centauros e egivans, desfilando por obra de um teatro, um tanto ou quanto voluntário. Os contos infantis são também um teatrinho que revestem decorosamente o medo. A infância se imerge em normas, varetas, lâmpadas, tapetes mágicos e Sésamo que montam um mundo coerente no recinto doméstico onde a criança introjeta a primeira ideia de uma lei. A natureza, pelos limites de possibilidade de exploração, atemoriza mais que os contos infantis. Varinhas de condão não são espingardas de verdade, mas são as defesas e garantias das crianças. E em uma arma de verdade, como a flecha, o bom uso depende da pontaria. E se o braço tremer? E quando acerta, o quê causou a precisão? E ai entra a ideia de que acertar o alvo, o inimigo, não é obra só da flecha e do arco, mas são também de sortilégio, feitiço ou bruxaria. Gostaria de pensar que o mais temível atirador de elite seja ao mesmo tempo o menos supersticioso dos mortais. Mas dá-se o contrário. Se errasse sempre, seria menos supersticioso.
3- PS:-O capítulo VIII se intitula LES JEUX. Qual seria a melhor tradução? Jogos, teatro, brincadeiras, ou...
- Tragam cópia do texto. Obrigado. Viegas

sexta-feira, 6 de maio de 2011

M E D O

" Há quem continue procurando um Deus porque ainda não apagamos completamente o medo, nem eliminamos a morte". Saramago, EL AMOR POSSIBLE, Edit. Planeta, 1998
Postado por Viegas

terça-feira, 3 de maio de 2011

MEDITAÇÕES OUTRAS

MEDITAÇÕES OUTRAS (B)

PRIMEIRO LIVRO – ALADIN PARA O CAPÍTULO SÉTIMO (CONT.)

1.Saramago (1922-2010): “Tentei não fazer nada na minha vida que envergonhasse a criança que foi”.

2.Algumas citações de Fedro (Platão)

•“Estou convencido de que os amantes carecem mais de piedade do que de inveja” (Lísias, o crítico)

•“Uma das coisas que escapa à maioria dos homens é a coisa na sua essência e como julgam conhecê-la”.

•(Encapuzado – Primeira fala)- Sócrates: “Mas agora me dei conta claramente de meu pecado.” ( De quem é o discurso lido? O demônio em Sócrates é uma tolice?) Risibilidade total. Os ingênuos são iludidos.)

•O tema é o amor. Passa-se ao segundo discurso.

•A loucura não é um mal e nem doença (Sócrates)

•“... mas acontece que muitos dos nossos bens nascem da loucura inspirada pelos deuses,,,” (Segundo discurso)

•Maniké (loucura) e mantiké (vidente). E la nave vá... E o final:

•Oração de Sócrates: Oh Divino Pã e musas... Ajudai-me a buscar a beleza interior e fazei com que as coisas exteriores se harmonizem com a beleza espiritual! Fazei com que o sábio me pareça sempre rico e que eu tenha tanta riqueza quanto um homem sensato for capaz de suportar e governar!”.

•Sócrates novamente: “Por mim, Fedro, acho que pedi tudo o que desejo”.

•Fedro: “Pois suplica para mim a mesma coisa, já que os amigos tudo devem possuir em comum!”

•Sócrates: “Então, vamos!”

3-(NB. Amigos; companheiro em latim: o que reparte o pão- Cum pane )- Grego : Pan Panós ..... (Trigo, pão e Deus em Guerra Junqueiro. Ver Blog ESTUDANTINA).

ORAÇÃO AO PÃO

Poema de Abílio Manuel GUERRA JUNQUEIRO(1850-1923)

Num grão de trigo habita
alma infinita.
Alma latente, incerta,obscura,
mas que geme, que ri, que sonha, que murmura.
Quando seara é ceifada, acaso o grão
terá dor? Por quê não?!
Um grão de trigo,
mil anos morto num jazigo,
dêem-lhe terra e luz,
e ei-lo germina, cresce e floresce e produz"
Postado por Viegas, para aquecer o BLOG

sábado, 16 de abril de 2011

AÇÕES XXX-MEDO

MEDITAÇÕES-XXX-PRIMEIRO LIVRO-ALADIN
SÉTIMO CAPÍTULO – O MEDO (CONT. págs. 49-50)
1- Outros preliminares curiosos. Aquecimento. – Na tradição bíblica já se dizia que a PALAVRA tem um poder de vida e de morte. Há idiomas ricos e pobres em palavras. Alguns dispõem apenas de termos opostos (AMOR x ÓDIO) sem nuances intermediárias. Em português, veja quantas aproximações, sem identificação total, se pode fazer do verbete GÊNIO: mago, mágico, espertalhão, finório, artista, ilusionista, talentoso, ardiloso, sagaz, astuto, ladino, capcioso, prestidigitador e outros. Por outro lado, algumas palavras desafiam uma conotação exata e peculiar no uso quotidiano. São permutadas com facilidade. Estamos lutando dom os termos AFETO, EMOÇAO E SENTIMENTO... Outras curiosidades relativas ao nosso capítulo: David significa querido; melequé, Rei; Kinorr (dedilhar digitar, dedo, dígito) a Harpa ou Lira pode conseguir algum efeito terapêutico. Davi d já praticava a musicoterapia.
2- Observei uma c onversa de criança amedrontada. Viam-se os efeitos, mas não as causas. A menina me confessou que tinha medo do movimento das sombras de árvores projetado pela iluminação de rua. Estava ciente de que se tratava de sombra, porém tinha medo. E com ele se encontrava a cada entardecer. Foi necessário trocá-la de quarto. Não se pode afirmar precipitadamente que a criança imagina alguma forma humana escondida em cada coisa. (NB. Digressão sob re animismo). Talvez não veja nada. As narrações de gênios e pessoas habilidosas (lutins) são o início de um remédio contra o medo sem objeto ameaçador. A arte de David começou dessa maneira.
3- Não é fácil temer (respeitar) por motivos racionais. Ainda que seja estranho, se não se começa pelo medo, forma-se apenas uma ideia de temor (respeito), quase sem objeto (matéria). O ódio começa pela tristeza e para amar é preciso estar feliz. Essa é a ordem dos afetos , de baixo para cima, sem descida. Como não se chega a amar conforme o desejado, também não se tem medo somente por obrigação. É até possível que o que o verdadeiro medo seja distinto das razões que se lhe atribuem. Talvez seja por isso que somente quando o medo é superado é que ele pode ser incorporado ao temor (reverencial),ao respeito ou até à admiração. No estado de paixão, decorrente do temor (reverencial) manifesta-se a coragem. O conceito de paixão, aqui mencionado, é muito importante para o nosso tema. ( NB. Origens do fanatismo) Uma menina ao folhear um álbum de caçadas viu a figura de um lobo, sem sentir medo algum. Mas, depois de virar a página, ausente a figura do lobo, o medo o transformou num monstro indescritível e que afinal não era nada. Soube que um naturalista, no SIAM, viu um gato enorme pulando. Era um tigre. E o naturalista teve medo só depois de refletir, ou seja, depois da descrição que fez da aventura, para si ou para outros. É o que acontece com freqüência nos perigos, sobretudo quando a troca de sinais não provoca o medo epidêmico (?). E por outro lado um canto religioso pode espantar o medo, no mais terrível perigo, como se diz que aconteceu no TITANIC. Não sei até onde pode ir o poder heróico, mas sempre o medo é mais importante para o homem do que o perigo. Pode-se cantar marchando para a guerra ou para o martírio. O que acontece na própria dor não muda o acontecimento, pois as marcas da dor desaparecem rapidamente. De acordo com minhas conjecturas, o momento das catástrofes que nos aniquilam não é objeto nem de temor, nem de medo, nem mesmo de lembrança, se não permanecem as provas.
4. Continuaremos com medo ou temor na próxima Terça. Viegas

sexta-feira, 15 de abril de 2011

MEDITAÇÕES S/N (A)

MEDITAÇÕES -S/N –(A)
Para o capítulo sétimo (O MEDO)- Informações.
1-SIAM, a região citada no capítulo, é hoje a famosa TAILÂNDIA.
2-TITANIC – Na noite do dia 14/07/1912 (há 99 anos) o então maior navio do mundo afundou-se em sua primeira viagem. Havia 3 547 pessoas a bordo. Morreram 1 523.
Na ocasião a orquestra do navio teria executado, entre outras, as seguintes músicas:
My heart will go on; Another Day; If walls could talk; In every age; Sorry for love.
Nessa data Alain (1 868-1 1951) estava com 44 anos de idade.
3-IBYCOS foi um poeta lírico do século VI a.C. Poucos escritos restaram de sua obra, entre os quais, Alain cita o caso dos grous voando,quando foi assaltado por bandidos.
4-HONORÉ DE BALZAC (1 799- 1 850) escreveu muitos livros. Alain cita LE MÉDICIN DE CAMPAGNE, onde se narra a história da CORCUNDA CORAJOSA. “Ela tinha medo, e quando alguém tem medo , não se importa com nenhuma outra coisa.”
5- Outros nomes lembrados:
- FEDRO, livro de Platão (428-347 a.C)
E os seguintes autores de fábulas:
- ESOPO (Século IV a.C.); -FEDRO (15 a.C.-50 d.C.) e LA FONTAINE – (1 621–1 695).
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domingo, 10 de abril de 2011

MEDITAÇÕES XXIX - MEDO

MEDITAÇÕES-XXIX-PRIMEIRO LIVRO-ALADIM
SÉTIMO CAPÍTULO – O MEDO (págs: 48-49)
1- A situação mágica deixa consequências. Na infância, as palavras comandam o aparecimento dos objetos e dos servidores. E também na vida dos adultos elas operam milagres. Por causa de termos surgem guerras. A imaginação triunfa e acaba em oposições, passando da realidade da miséria à riqueza dos tronos imperiais. Sabe-se, todavia, que os deuses, por mais terrificantes que o sejam não aparecem nunca. É o invisível que nos conduz. A espécie de inquietação que se experimenta no meio de uma floresta se alimenta de silêncio e aumenta com uma paz que não acalma. Se for possível, é necessário descobrir a verdade da imaginação que, por sua vez, é nada. Atrás da visão (vision n.b.), situa-se esse enigma que é só visão. Miragens sobre miragens. Quando sinto um suposto assaltante atrás da porta, eu ouço o seu respirar pelo buraco da fechadura. Mas esse respiro é o meu. Contudo, o ladrão que não escuto é o mais perigoso. Já se dizia que o desconhecido amedronta.
2- A emoção está presente. Afirma-se um pouco levianamente que o apalpar não engana. Talvez isso se possa dizer do tato voluntário. O toque da emoção é um falso testemunho. O que é a emoção? Em resumo é uma preparação do corpo humano, portanto um modo de agir que se inicia na expectativa de alguma coisa. Parece com ensaio. São movimentos que seriam feitos se o objeto esperado estivesse presente. (N.B. O pedestre que fala e gesticula sozinho). Mas o que caracteriza a emoção é o próprio despertar ou uma espécie de alarme de todas as nossas funções, talvez recordando um abalo precedente, já experimentado ou apenas imaginado. E esse tremor ou susto deriva frequentemente de uma pequena queda. Pode ter sido apenas um dedo dormente ao se acordar de um sono em posição de mau jeito. O abalo inicial, de origens diversas, irradia-se pelos tecidos nervosos do corpo todo, provocando uma alerta geral, sem nem mesmo saber para quê. Sentinelas de prontidão. O aumento dessa perturbação, da qual nem sempre se sabe o motivo, configura o próprio medo. O provérbio ensina que a alegria provoca medo. De fato, todo movimento de origem involuntária, provoca medo. E como se tem medo do medo, pode-se afirmar que a emoção pura é medo. (NB. Emê). E o que fala a neurologia contemporânea?
3- Mais tarde na vida, essa ingenuidade pode transformar-se em habilidade. A força máscula pode fazer o medo virar cólera. Mas sem dúvida a criança tem medo do medo. Ela percebe que ocorre em determinados momentos e lugares. E ai o objeto que amedronta não tem função quase nenhuma. Sem percepção de objeto terrificante, o medo caminha sozinho com seu medo. Isso acontece com crianças e adultos! É por isso que se pode dizer que há medo dos deuses. Eles são invisíveis. Isso faz recordar a vertigem e, em oposição, as melhores cenas dramáticas. É possível garantir (assurer) a inocência da infância? Alain acha que isso é nosso dever.
4-Favor trazer cópias do texto. Vamos continuar com medo. Viegas