quinta-feira, 31 de março de 2011

OLHE LÁ !

"A TERRA É UM TEMPLO,
O LAVRADOR É O SEMEADOR,
A LAVOURA É ALTAR
E O GRÃO É OFERTA."
Cora Coralina
(NB. O lavrador poderia tb. ser o sacerdote! Só na poesia...)
Postante: Viegas

segunda-feira, 28 de março de 2011

Há uma criança...

ARNALDO RABELO escreveu:
" Há uma criança morando em mim que
nunca cresce.
Ela acredita num mundo cor de rosa onde o amor
ainda prevalesce...
Sente flores no outono,
colhe sol no inverno"
Postado po Viegas

domingo, 27 de março de 2011

MEDITAÇÕES XXVIII

MEDITAÇÕES-XXVIII-PRIMEIRO LIVRO-ALADIM
SEXTO CAPÍTULO - BURGUESIA (págs. 46-48)


1- INFORMAÇÕES ÚTEIS.
– François-Marie Arouet VOLTAIRE (1694-1778). Relacionou-se com Berkeley, Leibniz e outros pensadores. Escreveu vários romances bem humorados nos quais, segundo Will Durant (1855-1981), “... os heróis são idéias; os vilões, supersticiosos; e os acontecimentos, pensamentos”. Um dos romances é CANDIDE, um rapaz otimista, filho de barão, um pouco ingênuo. Seu preceptor era o Dr. PANGLOSS que, segundo alguns, seria uma caricatura de Leibniz (1646-1716), cujo otimismo e utopia de conciliação universal são ridicularizados. Na época da publicação a autoria era atribuída a Dr. Ralph. Dizem que Voltaire sempre negou a paternidade da comédia.
-PANGLOSS. A palavra inventada pode ser assim decomposta: PAN, PANG, GLOSS e LOSS. (NB. Voltaire morou algum tempo na Inglaterra). Pérolas de PANGLOOS que negava o conceito de causalidade: As pedras foram criadas para edificar castelos; o nariz foi criado para sustentar os óculos; as pernas foram criadas para segurar as calças. No final do romance, depois de um longo discurso sobre história pronunciado por Pangloss,, fecha-se o livro com a célebre frase de CÂNDIDO... “mas agora vamos cuidar da horta”. Se não há couve-flor, repolho e alface, como fazer uma salada?
- JEAN LÉON JAURÈS (1859-1914). Político socialista, pacifista, e conciliador. Morreu assassinado em Paris por um adepto da guerra contra a Alemanha
. – EMMANUEL KANT (1724-1804).
– GOTTFRIED(?)LEIBNIZ (1646-1716).
2- Uma organização de trabalhos é sempre envolvida por contratos, que comportam uma negociação de cláusulas. O burguês, hoje empregador, ocupa o lado mais importante, ficando o proletário, hoje o empregado, em segundo lugar. Antes se falava mais em burguês versus proletário. Em caso de demanda, se diz hoje, reclamação trabalhista, restringem-se a imaginação e o encanto, quando o juiz além da letra do contato analisa as condições de execução do trabalho. Contudo, muitas vezes prevalece o discurso da conciliação, fundamentado em herança infantil que privilegia a dialética dos conceitos, característica da burguesia. Esse procedimento de acordos ou conciliação tem algum parentesco com o idealismo. É a fuga da realidade, condições reais de trabalho, refugiando-se no discurso. E o perigo desse discurso é a contradição. A conciliação encobre essa manobra. As utopias, como se nota no pensamento do professor (?) Jaurès, líder socialista, consistem justamente na tentativa de acomodar frases. É verdade ou não que um acordo social, por contrato explícito inteiro.o, seja contrário ao desenvolvimento dos indivíduos segundo suas possibilidades? E o filósofo (?) Jaurès, na ironia de Alain, diz que não se é forçado a negar um lado da questão quando se afirma o outro.e que ele prova essa façanha afirmando ou aceitando os dois lados. É lamentável esquecer o curso dos acontecimentos para salvar um palavreado. O pão desses senhores é a gramática... E Alain acaba colocando no mesmo balaio o socialista-filósofo Jaurès, as divagações do Dr. Pangloss e o ilustre Leibniz, este o mais habilidoso dos conciliadores. A criança pára de gritar quando ouve uma canção e melhor ainda quando lhe dão um banho. Supõe-se por isso que a conexão aparente do palavreado, por afirmações, negações e distinções encobrem um encadeamento que enforca, aperta os pulmões e oprime o corpo inteiro. É como se a verdadeira causa da mamadeira fossem gritos e choros. A puerilidade é sempre mais eficiente e não deixa de ser utilizada, mesmo por gente importante. Kant(1724-18040) afirmou que um acordo de palavras, por mais perfeito que o seja, não atinge de modo algum, uma arrumação de coisas ou objetos. Uma reunião, recheada das melhores palavras, não muda a vida concreta de ninguém.
3- O povo, de modo geral (NB. Tenho muito medo de falar em nome do povo...), percebe a vacuidade dos discursos? Considera o palavrório de patrões, autoridades e políticos, como tagarelice de marmanjos, alimentados pelo trabalho dos operários? Ou será que o povo acha que esse jogo é remontagem de fatos que ultrapassam humores e não vai à sua fonte que são casa, comida, luz e outros benefícios? É necessário que as palavras produzam coisas e assim seria a ontologia( NB. Ciência do ser ou ente ). Daí é que alguns pensadores teimosos criaram a ideia de uma dialética, que denominam com propriedade de materialista,segundo a qual os sistemas teológicos revelam um modo de viver e trabalhar. Alega-se que há um deus para cada profissão. Só que a ligação do trabalho com a crença é mais forte do que pensam os crentes. E porque o filósofo fala ingenuamente com palavras, ele vive de palavras, requer-se uma filosofia dos filósofos. Sempre se percebe que o inferior carrega o superior. Por isso, a verdade é que o materialismo sustenta o espírito. Saco vazio não pára em pé. Miolo mole não raciocina. A doutrina das religiões se evidencia na vida campestre. O deus TERMO ( palavra ou vocábulo) reina nos centros urbanos e seu rosto, sem rosto, aparece em recantos agrestes.
4- Próximo tema: O MEDO – Sétimo capítulo, dia 29./03/

segunda-feira, 21 de março de 2011

MEDITAÇÕES XXVII

MEDITAÇÕES-XXVII-PRIMEIRO LIVRO-ALADIM
SEXTO CAPÍTULO - BURGUESIA (págs. 45-46)

1- Onde, quando e como nos enganamos naturalmente? Qual é a razão desses tropeços? Percebe-se que os nossos erros não se resumem a repetições de comportamentos infantis. O espetáculo do mundo e a vida em sociedade explicam as armadilhas da imaginação e todos os níveis de religião, que permanecem sempre no mais simple de nossos pensamentos. Sendo a infância mais despreparada, entendemos que nossas origens foram muito limitadas. E não há outro jeito de crescimento humano O segredo dos deuses já aparece em contos e histórias durante esse processo. E essa riqueza arcaica foi amplamente desenvolvida pela condição burguesa. Alain vê-se na obrigação de afirmar, o que se explicará melhor a seu tempo, que a situação burguesa, já presente na infância, desenvolve-se e se enriquece de idéias preciosas. Mais ainda. Sem tais idéias, o pensamento proletário, que se engana menos, mas afinado ao burguês, não teria tomado consciência de sua própria condição. Umas divagações pertinentes. O animal nunca se engana. Ele não edifica altares, nem estátuas e nem fabrica deuses falsos. Por isso dome e dormirá sempre. (NB. O rato supersticioso de behaviorismo – Bloomfield e Skinner). E repetindo: Nós todo fomos burgueses, até os filhos de operários e camponeses, quando crianças.
2- A burguesia é inteiramente marcada pela religião. Suplicar, pedir, orar, rezar e enfim persuadir ou convencer não têm regras estabelecidas. Tudo depende da opinião daquele que se deseja convencer. (NB. Opinião é um estado da mente. Por hipótese, o deus dos cristãos não tem essa fase mental). Na arte ou artimanha de convencer (NB: vendedores, pastores, estelionatários, políticos, mendigos...) evidentemente há o risco de se negligenciar algum detalhe cuja utilidade passa despercebida. Quem deseja ser educado nunca o é suficientemente. A delicadeza pertence ao ofício de seduzir. Por isso todas as práticas são instrumentos úteis nessa profissão de suplicar ou pedir. Por outro lado, o proletário despreza a cortesia. Ele não consegue nada da terra, do ferro ou do chumbo com gentileza. O problema da burguesia é o da partilha (partager) dos bens, enquanto a tarefa dos proletários e agricultores é produzi-los. (NB. Produzir prole.) Na verdade, todos somos um pouco comerciantes.( NB. Peguy: Todos os comerciantes são ladrões). Compreende-se que o mendigo ou pedinte seja um requintado burguês. (NB. Ordens, comunidades mendicantes, algumas ONGS). O mendigo nada consegue sem exercer a arte de pedir por sinais comoventes, pois os andrajos falam e clamam. Pela mesma razão, os desempregados se transferem para os quadros da burguesia. Alain adiante que está apenas desenvolvendo as idéias de Marx quando afirmou que cultura, sentimentos e religião decorrem da maneira de ganha a vida. Mas esse pensamento e suas deduções ainda carecem de muita explicação. Ele ainda é uma visão (vision) como qualquer outra. O proletário, enquanto vive e pensa de acordo com seu trabalho concreto, luta conta a resistência dos materiais e é naturalmente sem religião. Mas também não existe um proletário completo. E ainda é preciso que o risco do proletário perfeito é enganar-se sobre boas maneiras,sinais convencionais, crédito, persuasão, convencimento e enfim sobre a própria religião. Ele não a julga verdadeira. Alain alega ter advertido no começo que no final tudo seja verdadeiro. E o não-ser é nada e nada faz.
3- A questão proposta na semana passada foi respondida? No final, tudo é verdadeiro? Assuntos do próximo encontro: Contrato e frases vazias. Viegas

segunda-feira, 14 de março de 2011

MEDITAÇÕES-XXVI-PRIMEIRO LIVRO-ALADIN

MEDITAÇÕES-XXVI-PRIMEIRO LIVRO-ALADIN
SEXTO CAPÍTULO - BURGUESIA (págs. 44-45)

1- Burguês é o habitante da cidade. Essa palavra é muito explicativa. Ela mostra a oposição entre comércio e ofícios, sobretudo a diferença com o trabalho no campo. A oposição natural entre burgueses e camponeses, nestes, incluiu os lenhadores, e daí os carvoeiros também de minas. O burguês se caracteriza pelo uso do sistema de persuadir, convencer ou fazer-se acreditar no ato de vender alguma coisa. (NB. Vender vaga no paraíso e loterias). Foi um passo para o desenvolvimento das técnicas de venda. (Fenícios, árabes, mascates, bodegueiros, navegantes ibéricos, piratas e corsários). Voltando à categoria dos usuários da arte de persuadir, Alain nela incorpora lojistas, professores, padres, pastores, advogados, ministros e outros. Esses, continua o autor, não mudam nada na face da terra e nem transportam ou carregam mercadorias (?). Não são os objetos produzidos que se enfrentam com os burgueses, mas outras pessoas humanas. Desse embate nascem e renascem espantosos prejuízos e preconceitos que, na raiz, configuram a permanência da infância no adulto. O burguês se aperfeiçoa na arte comandar seus empregados ou serviçais e nutrisses. Esta é também a habilidade peculiar dos soberanos. E nesse caso se trata de uma infância mais competente que usa uma vara de condão mais apropriada.
2- O espetáculo do lançamento de uma pedra fundamental e suas implicações é significativo. A fala do ministro, primeira pedra, o mestre de obra deslumbrante, tudo sob comando de palavras. A força verbal carrega pedras, cimento, ferro, madeira e outros instrumentos. Nesse exercício da profissão de ministro não se aprende nada sobre a produção de material para o empreendimento. Porque se fica embevecido com os contos de fadas? Para algumas pessoas, um edifício se ergue apenas por uma ordem, um decreto. Na caixa da pedra fundamental, depositam-se moedas. Elas são a representação ou o sinal. Esta mágica é real; “payer n’instruit pas”. Instruir e pagar são cozinhar o alimento dos ceifadores e transportá-los. Aplaude-se a criança que ajuda a babá, levando à mesa o saleiro ou uma colher de sopa. Assim é o burguês, sempre tangenciando o real.
3- Nós todos fomos burgueses, até os filhos de operários e camponeses, quando crianças. E o operário volta à posição infantil, quando ele (“se marchande”) regateia o valor do salário, pois está usando a técnica da persuasão (ameaça?). Não estou falando de negociantes ou de líderes sindicais, porque eles são burgueses completos, justamente no momento em que pretendem não serem os tais. Essa mistura de ficções com realidade, consequência dessa duplicidade, encerra o segredo de todas as (nossas?) desavenças. Todas as guerras são religiosas, mas todos os devotos contestam essa afirmação. É preciso saber o quê nos leva naturalmente a enganos e a causa desses estragos.
4- O próximo encontro é sobre essa pergunta. Viegas.