MEDITAÇÕES-XXVII-PRIMEIRO LIVRO-ALADIM
SEXTO CAPÍTULO - BURGUESIA (págs. 45-46)
1- Onde, quando e como nos enganamos naturalmente? Qual é a razão desses tropeços? Percebe-se que os nossos erros não se resumem a repetições de comportamentos infantis. O espetáculo do mundo e a vida em sociedade explicam as armadilhas da imaginação e todos os níveis de religião, que permanecem sempre no mais simple de nossos pensamentos. Sendo a infância mais despreparada, entendemos que nossas origens foram muito limitadas. E não há outro jeito de crescimento humano O segredo dos deuses já aparece em contos e histórias durante esse processo. E essa riqueza arcaica foi amplamente desenvolvida pela condição burguesa. Alain vê-se na obrigação de afirmar, o que se explicará melhor a seu tempo, que a situação burguesa, já presente na infância, desenvolve-se e se enriquece de idéias preciosas. Mais ainda. Sem tais idéias, o pensamento proletário, que se engana menos, mas afinado ao burguês, não teria tomado consciência de sua própria condição. Umas divagações pertinentes. O animal nunca se engana. Ele não edifica altares, nem estátuas e nem fabrica deuses falsos. Por isso dome e dormirá sempre. (NB. O rato supersticioso de behaviorismo – Bloomfield e Skinner). E repetindo: Nós todo fomos burgueses, até os filhos de operários e camponeses, quando crianças.
2- A burguesia é inteiramente marcada pela religião. Suplicar, pedir, orar, rezar e enfim persuadir ou convencer não têm regras estabelecidas. Tudo depende da opinião daquele que se deseja convencer. (NB. Opinião é um estado da mente. Por hipótese, o deus dos cristãos não tem essa fase mental). Na arte ou artimanha de convencer (NB: vendedores, pastores, estelionatários, políticos, mendigos...) evidentemente há o risco de se negligenciar algum detalhe cuja utilidade passa despercebida. Quem deseja ser educado nunca o é suficientemente. A delicadeza pertence ao ofício de seduzir. Por isso todas as práticas são instrumentos úteis nessa profissão de suplicar ou pedir. Por outro lado, o proletário despreza a cortesia. Ele não consegue nada da terra, do ferro ou do chumbo com gentileza. O problema da burguesia é o da partilha (partager) dos bens, enquanto a tarefa dos proletários e agricultores é produzi-los. (NB. Produzir prole.) Na verdade, todos somos um pouco comerciantes.( NB. Peguy: Todos os comerciantes são ladrões). Compreende-se que o mendigo ou pedinte seja um requintado burguês. (NB. Ordens, comunidades mendicantes, algumas ONGS). O mendigo nada consegue sem exercer a arte de pedir por sinais comoventes, pois os andrajos falam e clamam. Pela mesma razão, os desempregados se transferem para os quadros da burguesia. Alain adiante que está apenas desenvolvendo as idéias de Marx quando afirmou que cultura, sentimentos e religião decorrem da maneira de ganha a vida. Mas esse pensamento e suas deduções ainda carecem de muita explicação. Ele ainda é uma visão (vision) como qualquer outra. O proletário, enquanto vive e pensa de acordo com seu trabalho concreto, luta conta a resistência dos materiais e é naturalmente sem religião. Mas também não existe um proletário completo. E ainda é preciso que o risco do proletário perfeito é enganar-se sobre boas maneiras,sinais convencionais, crédito, persuasão, convencimento e enfim sobre a própria religião. Ele não a julga verdadeira. Alain alega ter advertido no começo que no final tudo seja verdadeiro. E o não-ser é nada e nada faz.
3- A questão proposta na semana passada foi respondida? No final, tudo é verdadeiro? Assuntos do próximo encontro: Contrato e frases vazias. Viegas
segunda-feira, 21 de março de 2011
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