sexta-feira, 25 de junho de 2010

Les Dieux

Estou me deliciando com a leitura do Alain e agora mesmo interrompo para refletir sobre o que ele escreve no cap. I, Aladin, Autrefois, pag. 18, 19 e 20, muito profundo. Adorei que ele tenha chamado sua obra de Iniciação ao erro.
Abraços, SSilv

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MEDITAÇÕES (IV)

1- Quando nossas imagens derivam dos movimentos do corpo e das paixões que deles resultam, a dificuldade de conhecer com exatidão é muito diferente. Um bom exemplo são os sentimentos de medo e de esperança. O medo, falando genericamente, é um tipo de emoção que nos afeta. O olho cansado vê manchas, os ouvidos misturam ruídos com os próprios sussurros. Tapando as minhas orelhas sinto um silêncio que não existe. A imaginação, perante qualquer obra de arte, recua e até desparece de repente.
2- A lua em si permanece sempre a mesma, na alvorada e ao entardecer. Ninguém fica assombrado com essas ilusões. Será que, neste exemplo, Alain estaria concordando com Spinoza? Quais seriam as consequências dessa ilusão? A física ensina apenas que no caso o erro não está onde se acredita. Allain alega que nem sempre é entendido ou que talvez não consiga ser suficientemente claro, quando trata da lua. O que ele está vendo que escapa à percepção dos leitores? Alain, talvez como hipótese de trabalho, acha que o tamanho da lua no horizonte derivaria de um leve movimento de medo ou de surpresa? E prossegue, lembrando que a imaginação, toda ela, está no corpo humano (pág.16) e consiste somente nos movimentos desse corpo, pelo menos como instrumento. Essa referência a “instrumento” seria uma homenagem ao dualismo? Mais emocionante que o nascer da lua seria a vertigem. Ela nos invade e parece que nos arremessa em um abismo. Essa aparência pavorosa de precipício iminente de onde vem? Como isso acontece?
3 – As coisas que nós deformamos, com nosso olhar, não afetam em nada as coisas em si mesmas (pág.17). A mudança é puramente imaginária. É apenas uma atitude de corpo, uma espécie de mímica. Enfim, permanecendo sempre as mesmas, elas só variam por causa dos ângulos de visão, pelas condições de luz e pelas nossas disposições de humor. Alain arrisca uma conclusão, dizendo que essa análise elaborada até agora pode nos esclarecer sobre a natureza dos deuses (pág.17). É nesse invisível que procuramos nossas principais emoções, que transportamos às coisas com as quais convivemos. Talvez seja por isso que Thales teria afirmado que tudo está cheio de deus.
4 – Farei agora uma curta digressão. Thales, (+ ou – 640 a 550 A.C.), comerciante rico, de origem fenícia, pré-socrático, foi o primeiro filósofo do ocidente. Estudou no Egito. Ensinava que a água é a substância original de todas as coisas. Aristóteles, em um de seus livros, afirmou que a alma estava misturada com o todo da pessoa, lembrando Thales que afirmara que todas as coisas estão repletas de deuses, e provavelmente supunha que a alma tinha movimentos, como o imã que atrai o ferro. E o teorema de Thales? Ele teria previsto um eclipse? Ele iniciou o método de demonstração por prova, usando o conceito de dedução na ciência. Conseguiu medir a altura da pirâmide de Quéops. São célebres algumas frases que lhe são atribuídas. Por causa de nosso tema, destaco as seguintes: A esperança é o único bem comum a todos aqueles que nada mais têm, mas ainda a possuem: e outra; “ a coisa de maior extensão no mundo( quem está em quem ?) é o universo; a mais rápida é o pensamento; a mais sábia é o tempo; e a mais agradável é realizar a vontade de Deus ( no singular ou no plural ?). Lembrei-me que o apóstolo Paulo, judeu e cidadão romano, disse que os cristãos , vivem, movimentam-se e existem em Cristo que é Deus. Deus não está mundo. Os cristãos e o mundo é que estão em Deus. Já falamos, em outra oportunidade que, para Spinoza, o pensamento e a extensão seriam afecções da Substância divina. A nave do universo seria Deus e nós flutuamos com ela em boa companhia. Essas
imagens e reflexões me parecem que eram como picumãs de chaminé que coçavam as meditações de Alain. Até a próxima. (21/06/10).Viegas, travestido de maestro

segunda-feira, 14 de junho de 2010

MEDITAÇÕES, ALAIN (III)

MEDITAÇÕES, ALAIN (III) – PÁG.14-

1 – Spinoza (1 632-1 677), um mestre difícil de ser seguido, afirma que não há nada de positivo no erro, talvez querendo afirmar que em Deus qualquer imaginação do homem é verdadeira. Fico desesperado, pois me julgo incapaz de uma intuição dessa sabedoria como sendo dos profetas vociferantes que se identificam com a reflexão do sábio. Mas essa idéia importante não pode ser deixada de lado ainda que, segundo penso, seria prudente adiar o estudo dessa citada intuição. Se eu estivesse de acordo, cisma Alain, teria de aceitar que todas as religiões são verdadeiras, o que impediria ao mesmo tempo o esforço de atualizá-las na medida do possível (pág.15).
Se eu conseguisse pensar os deuses, imaginando-me como um deles, to-dos eles seriam verdadeiros... Porém, permanecendo na condição huma-na, interrogando um deus depois de outro, uma aparência depois de ou-tra, melhor dizendo, uma aparição depois de outra, sempre procurando o verdadeiro atrás da imaginação, não estaria procurando a mesma coisa que a verdade da aparência. Não se trata, no caso de apenas ilusões de ótica, que não são negadas, mas confirmadas como tais. Qual a distância entre a especulação e a realidade cosmológica?
2- Alain preocupou-se com Spinoza. Muita erudição, especulações ou problema real? Pode-se dizer que o “mestre difícil de ser seguido” rompeu o dualismo corpo + alma, tão caro a Descartes e à tradição escolástica. Consequentemente, o pensamento e a extensão (espaço, corpo, movimento, tempo) são atributos da natureza que produziu o corpo pensante. Ele foi mais longe, Deus ou natureza são nomes da mesma realidade. E essa realidade (deus+ natureza) dispõe de infinitos atributos.
Nosso conhecido Damásio, (EM BUSCA DE ESPINOSA, pág.285) já comentava que o deus do “mestre” não era providente e nem concebido à imagem dos homens. Ele é a raiz de tudo que nossos sentidos atingem, mas é uma substância sem causa, eterna, com atributos infinitos. Ele nunca se apresentou aos homens para algum diálogo. Não se pode conversar com ele e nem ele deve ser temido porque não tem tempo parar distribuir castigos ou recompensas. A única coisa que precisamos temer é o nosso próprio comportamento. Hoje se diz ecologicamente que vimos fazendo muito mal ao planeta terra. Enfim, conhecer a natureza, que seria atributo de Deus, é única possível missão do homem. Talvez essa visão possa ajudar a explicar a profissão de Spinoza que era fabricar lentes para microscópios. Alain parece que tinha muito medo de Spinoza.
3 – Outro nosso conhecido, Marcelo Gleiser (A DANÇA DO UNI-VERSO) e passim lembra que Einstein , em 1947, escreveu que se aproximava de Spinoza, participando da “admiração pela beleza do mundo e pela simplicidade lógica de sua ordem e harmonia que podemos compreender”. Para Einstein e talvez Newton “adorar a natureza, estudá-la cientificamente era uma atitude religiosa”. De fato, enquanto viver for possível, não podemos quebrar ou romper nossas relações com o cosmo, de onde viemos. Depois da recordação dessas nossas antigas conversas voltaremos às preocupações de Alain.
Dia 12/06/10.

sábado, 5 de junho de 2010

MEDITAÇÕES, ALAIN (II)

INTRODUCÃO

1-Um conhecido, com veia filosófica, contou uma visão ou sonho. Viajava de trem, sentado do lado da janela, contemplando a paisagem. Vales, colinas, pastagens, outeiros e gente que vez por outra caminhava nas estradas. De repente, olhando firme através do vidro, respingado de gotas de chuva e flocos de neve, deparei-me com um monstro horrendo, de patas enormes, chifres ameaçadores, dentes ferozes à mostra, passeando sobre a paisagem. Olhei com mais atenção. Era uma vespa que pousara na vidraça. Esse curto momento de erro e engano me encantou. Os encontros inesperados tecem a beleza da existência.
Comentava então o bom filósofo. A verdade nos engana sobre nós mesmos. E o erro nos ensina bem mais adequadamente. Parece que todas as visões da história poderiam ser entendidas segundo esse exemplo simples. É uma felicidade (bonheur) surpreender nossas convicções velhas ou novas descobertas lá nas origens do nosso hábito de cismar.
Essa imagem ou pano de fundo serve de aperitivo para entender o sentido da pesquisa aqui empreendida.
Convém parar a roda do tempo, a fim de entrar num clima de reflexão. A doideira da rotatividade, da chuva de estímulos e da vontade de agarrar tudo num instante impede o pensar a origem, o percurso e a finalidade da existência. Parece que a procura da essência das coisas só acontece com as mentes dos maduros ou dos idosos que abandonaram a ânsia de dominar o mundo e os nossos vizinhos no planeta.
2- Em geral nós conhecemos as coisas através de vidraças. Não é possível contem-plar o sol sem lentes escuras. Para embaralhar o nosso conhecimento não é necessária a presença de uma vespa, pois antes de ela aparecer só chegávamos às coisas, através de uma vidraça. E mais ainda: essa vidraça se movimenta e nós no trem.
Essa pesquisa não pretende ficar só na instabilidade da vidraça que deforma o meu olhar. Vou além. Ultrapasso os borrões que embaçam o vidro em movimento. Quero acrescentar também a procura do lugar onde se situa a imaginação sobre a vidraça. Ela, também em movimento, deforma a realidade. A imaginação pertence ao movimento psíquico de conhecer.
Na verdade a vidraça seria eu mesmo. Parece que todo o movimento que faço, intencionalmente ou não, agindo por emoção, se estou com medo, se me altero pelo ato de respirar ou pela circulação do sangue, tudo isso modifica as imagens que durante a vida vou construído sobre o real, fora de mim. Será que se pode falar de erro nesse caso?
No fundo, os movimentos intemperantes ou exagerados, que o doido chega a produzir, levam-no a não saber onde está, o que deseja, o que vê e nem o que faz.
É bastante claro que, nesse sentido, nós todos somos um pouco malucos. Não é só por isso que as idéias aqui expostas nem sempre são claras e distintas.
3-A sabedoria, enquanto possível, tenta arrebatar do nosso conhecer todos os traços de nós mesmos, enfim, de nossa subjetividade. Chegar até ai parece ser o procedimento da ciência rigorosa. Chegar lá, não sem sofrimento, é o que faz compreender a ordem do abstrato haurido do concreto, que somos obrigados a admitir. É desvendar, inicialmente, em clima de contínuo espanto, quantidades e distâncias entre as coisas e seus sinais e depois, os movimentos, os efeitos dos choques e das descobertas, as combinações químicas de nosso íntimo. Tudo isso nos leva a entender penosamente um pouco dos movimentos da vida, até alcançar as nossas próprias paixões. Então se observa que a causa de nossos erros não foi eliminada senão provisoriamente. As perturbações do sujeito que conhece continuam participando das verdades positivas. Pelo que foi narrado, parece que tudo seria verdadeiro, mesmo as extravagâncias de um demente, se um dia soubéssemos tudo. Imagino que se esse dia chegar para alguém, ele poderia ser chamado de deus.
05/VI/10

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Alain

Agradou-mme muito a escolha de um assunto concreto para segurar as pontas. "Deuses" dá espaço para tudo, e refletir, meditar sobre o conteúdo do livro posso fazer onde estou agora, embora minha vontade de sair corrredo mundo afora seja grande; e daqui mesmo, desse espaço, poderei participar das reflexões do grupo.
Muito bom Viegas. Beijos a todos.
SSilv