MEDITAÇÕES-XXXI-PRIMEIRO LIVRO-ALADIN
SÉTIMO CAPÍTULO – O MEDO (CONT. págs. 50-52)
Um relato é sempre enganoso. E a análise das causas dessa atitude nos guia na direção dos deuses. Não há nada que provoque mais medo do que uma narração. Não se requer que as coisas descritas estejam presentes. É melhor que estejam ausentes. Basta que as percepções estejam embaralhadas para que se acredite ver ou se tema ver, como aconteceu na Vigília da Roça, quando o candeeiro mal iluminava os presentes e o local. Via-se bem apenas o narrador e todos assimilavam facilmente os afetos que ele expressava. Por isso acreditava-se em qualquer coisa que se dizia. A vigília do Médico da Roça (Médicin de Cammppagne) descreve muito bem esse teatro e é mais comovente que os monstros dos teatros. Mas, além do conto heróico, que rodeias as histórias corriqueiras, pode-se aprender mais sobre o poder da narração, lendo A CORCUNDA CORAJOSA (La bossue courageuse), do mesmo episódio. A descrição, partindo do verossímil e ultrapassando o medo pela coragem, chega aos limites do pavor, na calma reencontrada após um perigo real. A cabeça e os membros do homem assassinado despencam sobre a panela,através da chaminé. Seria útil contrastar essa história com a dos grous de Ibycos (Les Grues d´Ibycos) onde, por outro lado, o desenrolar dos acontecimentos é natural e como tal se apresenta. O deus que pune está presente no culpado. Seria bom procurar esses respeitáveis testemunhos ou provas, sabendo claramente que se encontrará o nexo com os deuses, por sequência. Fique claro que religião não se esquarteja e que por isso deuses e diabos estão todos juntos, como barriga, peito e cabeça não se separam, se assim se pode dizer. Entenderam?
2. Voltemos à solidão da floresta onde o medo é experimentado sem os recursos da arte. Nas costas o homem não tem olhos para ver e nem armas para se defender. E, pela frente, em plena luz, vê apenas um lado da árvore. Se houver alguma fera, ela aparece num instante. E, algumas vezes, um animal ou lobo não passam de galhos de árvores balançando suas folhas. Essa comparação pode ajudar? Dizer que a aparição de um monstro a excitar as entranhas do solitário caminhante não passa de um balançar de galhos é uma prova ambígua, pois o GENIO MALÍGNO (Malin Genie) de Descartes, a pervagar todos os nossos pensamentos, pode comprazer-se em nos desenganar. O importante é o estado da questão. Ele se situa no debate entre o espírito e um mundo sempre insuficiente (insuffisant). (Botando a culpa no mundo?!?!). A experiência infantil é ingenuamente procurada e jamais demonstra alguma coisa. A discussão humana é a seguinte: Nós procuramos a verdade e depois de uma decantação de pensamentos, podemos encontrá-la em nós mesmos. Esse é o significado do exorcismo. Mas é preciso que antes o homem acredite no seu próprio espírito. O exorcismo nos acalma e nos remete a poderes invisíveis, escondidos atrás das árvores. E em Fedro, em outro tipo de exorcismo, quase aparecem deuses terrenos, centauros e egivans, desfilando por obra de um teatro, um tanto ou quanto voluntário. Os contos infantis são também um teatrinho que revestem decorosamente o medo. A infância se imerge em normas, varetas, lâmpadas, tapetes mágicos e Sésamo que montam um mundo coerente no recinto doméstico onde a criança introjeta a primeira ideia de uma lei. A natureza, pelos limites de possibilidade de exploração, atemoriza mais que os contos infantis. Varinhas de condão não são espingardas de verdade, mas são as defesas e garantias das crianças. E em uma arma de verdade, como a flecha, o bom uso depende da pontaria. E se o braço tremer? E quando acerta, o quê causou a precisão? E ai entra a ideia de que acertar o alvo, o inimigo, não é obra só da flecha e do arco, mas são também de sortilégio, feitiço ou bruxaria. Gostaria de pensar que o mais temível atirador de elite seja ao mesmo tempo o menos supersticioso dos mortais. Mas dá-se o contrário. Se errasse sempre, seria menos supersticioso.
3- PS:-O capítulo VIII se intitula LES JEUX. Qual seria a melhor tradução? Jogos, teatro, brincadeiras, ou...
- Tragam cópia do texto. Obrigado. Viegas
segunda-feira, 9 de maio de 2011
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