PRIMEIRO LIVRO-ALADIN
Primeiro Capítulo
ANTIGAMENTE (pág.24 a 28)
1- A idéia, repetindo, é uma ficção. Nada se percebe senão através de uma idéia. Ela é uma espécie de antecipação do conhecimento. O fato, em si mesmo, terminou quando aconteceu. Nenhuma ficção pode existir sem o homem, esse adulto que abriga uma criança, como lembrou Descartes. De acordo com a fábula dos gigantes, convém salientar que as idéias são formadas em nós e não são sinais inatos da mente. Por isso é que se pode afirmar que a nossa primeira experiência vital é encharcada de enganos, pois a mente procura e sustenta combinações diversas, que estão longe de ser a coisa em si. É o nosso condicionamento natural. É o imaginário que se despe totalmente da realidade de imaginário. Seria esse o nosso quotidiano? Várias pessoas negligenciaram esse percurso do ser humano. Vou abordar os erros e enganos dessas atitudes e espero também ai encontrar um núcleo de verdade. Mas se o leitor não participar desse espanto, jamais conseguirá pensar ou refletir sobre o que ele acha, pois talvez já saiba muito. Vamos abordar todas as manhas e confessá-las. Esse enredo, objeto principal do atual livro, encontra-se principalmente nos comportamentos mais ou menos voluntários observados nos atos religiosos. Os humanos têm medo de concluir as suas reflexões ou de seus pensamentos?
2- É possível descobrir as percepções ambíguas e enganosas? É possível demonstrar que o erro não é nada? Mas isso é pouco. Onde se situam o verdadeiro passado e a antiguidade bastante próxima no adulto. Mergulha-se num mar de erros verificáveis, uma experiência deslumbrante e sempre enganadora. Em outras palavras, uma espécie de iniciação solene na estrada do erro. Outro assunto seria refletir sobre a verdade dos sentimentos, que permanece totalmente inalterada. Se alguém descobre que a maldade deriva de algum indivíduo e não de causas exteriores, qual seria a consequência?Iria fortalecer a coragem para um estado de indignação? Para outros, o pensamento não reconhece nenhum mal além daquele do qual possa arrepender-se. Assim se processa o julgamento infantil, que é o nosso ancestral. Mas como a ideia falsa é conservada e superada, o esquecimento é a lei da infância. A recordação (souvenir) é nula, ainda que a memória seja fiel e sem culpa. Nosso real futuro é colocar diante de nós a nossa infância. Por isso é que talvez se possa afirmar que conhecer alguma coisa sem nenhum erro seja apenas desconhecer. O existir, as necessidades, o amor e a crença, desenharam imperiosamente o bem e o mal segundo o parecer do homem. O hábito de tudo obter através de súplicas e a paciência de esperar desenvolveram aptidões engenhosas, escoradas na coragem. Há uma criança em todo inventor, bem mais do que se acredita. A ambição cria o tirano e mais ainda um tirano do tirano. É deste modo o infantilismo ou infância na mente dos adultos. Talvez essa presença ainda seja mais acentuada do que pensou Descartes.
3- O autor deixa entender que pretende inventariar o passado infantil sempre próximo e atuante. Como todas as histórias, essa também é dialética. Essa dialética não está nas coisas em si, ela resulta da contínua reforma da maneira de pensar e das interrogações que não se calam. Como entender os “porquês” das crianças? As variações de perguntas revelam o despertar de novidades e assinalando o sentido de crescimento em direção do futuro. Essa dinâmica não é suficientemente lembrada.
4- É necessário descobrir a dialética da infância ou as etapas do esquecimento. O esquecimento é a substância dos sonhos e de certa maneira a forma do pensamento em todos os seus passos. Seria essa a hipótese de Platão? As produções úteis são as brincadeiras, as canções e principalmente as histórias ou contos sempre ouvidos como lendas. Mas é preciso tentar inserir algum tipo e ordem nesse material, sem necessidade de provas. As demonstrações podem melhorar a ordem.
5- A premissa maior é esse passado irrevogável, de onde fomos expulsos sem possibilidade de retorno, perda que não se pode senão lamentar. E o autor enumera as delícias do paraíso perdido ou da infância que não volta mais. Fui alimentado em rios de leite, mas isso não poderia durar sempre. Fui expulso do paraíso porque desejei permanecer lá para sempre e eu lamento essa punição, que é a minha riqueza própria. Edificam-se, em torno desse episódio, riquíssimas e constantes ficções. Até as subtilezas teológicas vão se explicar pela condição de uma infância amada, deplorada ou recusada. Quem não desejaria ser imortal? E se ficar comprovado que viver é morrer continuamente para alguma coisa? Vamos separar essa quantidade de sentimentos e morrer logo no instante agradável da primeira investigação (?). Viegas, empacotador de sugestões. Próximo assunto: COCAGNE, Segundo Capítulo (págs. 29 a 32).
sábado, 7 de agosto de 2010
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