segunda-feira, 21 de junho de 2010

MEDITAÇÕES (IV)

1- Quando nossas imagens derivam dos movimentos do corpo e das paixões que deles resultam, a dificuldade de conhecer com exatidão é muito diferente. Um bom exemplo são os sentimentos de medo e de esperança. O medo, falando genericamente, é um tipo de emoção que nos afeta. O olho cansado vê manchas, os ouvidos misturam ruídos com os próprios sussurros. Tapando as minhas orelhas sinto um silêncio que não existe. A imaginação, perante qualquer obra de arte, recua e até desparece de repente.
2- A lua em si permanece sempre a mesma, na alvorada e ao entardecer. Ninguém fica assombrado com essas ilusões. Será que, neste exemplo, Alain estaria concordando com Spinoza? Quais seriam as consequências dessa ilusão? A física ensina apenas que no caso o erro não está onde se acredita. Allain alega que nem sempre é entendido ou que talvez não consiga ser suficientemente claro, quando trata da lua. O que ele está vendo que escapa à percepção dos leitores? Alain, talvez como hipótese de trabalho, acha que o tamanho da lua no horizonte derivaria de um leve movimento de medo ou de surpresa? E prossegue, lembrando que a imaginação, toda ela, está no corpo humano (pág.16) e consiste somente nos movimentos desse corpo, pelo menos como instrumento. Essa referência a “instrumento” seria uma homenagem ao dualismo? Mais emocionante que o nascer da lua seria a vertigem. Ela nos invade e parece que nos arremessa em um abismo. Essa aparência pavorosa de precipício iminente de onde vem? Como isso acontece?
3 – As coisas que nós deformamos, com nosso olhar, não afetam em nada as coisas em si mesmas (pág.17). A mudança é puramente imaginária. É apenas uma atitude de corpo, uma espécie de mímica. Enfim, permanecendo sempre as mesmas, elas só variam por causa dos ângulos de visão, pelas condições de luz e pelas nossas disposições de humor. Alain arrisca uma conclusão, dizendo que essa análise elaborada até agora pode nos esclarecer sobre a natureza dos deuses (pág.17). É nesse invisível que procuramos nossas principais emoções, que transportamos às coisas com as quais convivemos. Talvez seja por isso que Thales teria afirmado que tudo está cheio de deus.
4 – Farei agora uma curta digressão. Thales, (+ ou – 640 a 550 A.C.), comerciante rico, de origem fenícia, pré-socrático, foi o primeiro filósofo do ocidente. Estudou no Egito. Ensinava que a água é a substância original de todas as coisas. Aristóteles, em um de seus livros, afirmou que a alma estava misturada com o todo da pessoa, lembrando Thales que afirmara que todas as coisas estão repletas de deuses, e provavelmente supunha que a alma tinha movimentos, como o imã que atrai o ferro. E o teorema de Thales? Ele teria previsto um eclipse? Ele iniciou o método de demonstração por prova, usando o conceito de dedução na ciência. Conseguiu medir a altura da pirâmide de Quéops. São célebres algumas frases que lhe são atribuídas. Por causa de nosso tema, destaco as seguintes: A esperança é o único bem comum a todos aqueles que nada mais têm, mas ainda a possuem: e outra; “ a coisa de maior extensão no mundo( quem está em quem ?) é o universo; a mais rápida é o pensamento; a mais sábia é o tempo; e a mais agradável é realizar a vontade de Deus ( no singular ou no plural ?). Lembrei-me que o apóstolo Paulo, judeu e cidadão romano, disse que os cristãos , vivem, movimentam-se e existem em Cristo que é Deus. Deus não está mundo. Os cristãos e o mundo é que estão em Deus. Já falamos, em outra oportunidade que, para Spinoza, o pensamento e a extensão seriam afecções da Substância divina. A nave do universo seria Deus e nós flutuamos com ela em boa companhia. Essas
imagens e reflexões me parecem que eram como picumãs de chaminé que coçavam as meditações de Alain. Até a próxima. (21/06/10).Viegas, travestido de maestro

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