segunda-feira, 14 de junho de 2010

MEDITAÇÕES, ALAIN (III)

MEDITAÇÕES, ALAIN (III) – PÁG.14-

1 – Spinoza (1 632-1 677), um mestre difícil de ser seguido, afirma que não há nada de positivo no erro, talvez querendo afirmar que em Deus qualquer imaginação do homem é verdadeira. Fico desesperado, pois me julgo incapaz de uma intuição dessa sabedoria como sendo dos profetas vociferantes que se identificam com a reflexão do sábio. Mas essa idéia importante não pode ser deixada de lado ainda que, segundo penso, seria prudente adiar o estudo dessa citada intuição. Se eu estivesse de acordo, cisma Alain, teria de aceitar que todas as religiões são verdadeiras, o que impediria ao mesmo tempo o esforço de atualizá-las na medida do possível (pág.15).
Se eu conseguisse pensar os deuses, imaginando-me como um deles, to-dos eles seriam verdadeiros... Porém, permanecendo na condição huma-na, interrogando um deus depois de outro, uma aparência depois de ou-tra, melhor dizendo, uma aparição depois de outra, sempre procurando o verdadeiro atrás da imaginação, não estaria procurando a mesma coisa que a verdade da aparência. Não se trata, no caso de apenas ilusões de ótica, que não são negadas, mas confirmadas como tais. Qual a distância entre a especulação e a realidade cosmológica?
2- Alain preocupou-se com Spinoza. Muita erudição, especulações ou problema real? Pode-se dizer que o “mestre difícil de ser seguido” rompeu o dualismo corpo + alma, tão caro a Descartes e à tradição escolástica. Consequentemente, o pensamento e a extensão (espaço, corpo, movimento, tempo) são atributos da natureza que produziu o corpo pensante. Ele foi mais longe, Deus ou natureza são nomes da mesma realidade. E essa realidade (deus+ natureza) dispõe de infinitos atributos.
Nosso conhecido Damásio, (EM BUSCA DE ESPINOSA, pág.285) já comentava que o deus do “mestre” não era providente e nem concebido à imagem dos homens. Ele é a raiz de tudo que nossos sentidos atingem, mas é uma substância sem causa, eterna, com atributos infinitos. Ele nunca se apresentou aos homens para algum diálogo. Não se pode conversar com ele e nem ele deve ser temido porque não tem tempo parar distribuir castigos ou recompensas. A única coisa que precisamos temer é o nosso próprio comportamento. Hoje se diz ecologicamente que vimos fazendo muito mal ao planeta terra. Enfim, conhecer a natureza, que seria atributo de Deus, é única possível missão do homem. Talvez essa visão possa ajudar a explicar a profissão de Spinoza que era fabricar lentes para microscópios. Alain parece que tinha muito medo de Spinoza.
3 – Outro nosso conhecido, Marcelo Gleiser (A DANÇA DO UNI-VERSO) e passim lembra que Einstein , em 1947, escreveu que se aproximava de Spinoza, participando da “admiração pela beleza do mundo e pela simplicidade lógica de sua ordem e harmonia que podemos compreender”. Para Einstein e talvez Newton “adorar a natureza, estudá-la cientificamente era uma atitude religiosa”. De fato, enquanto viver for possível, não podemos quebrar ou romper nossas relações com o cosmo, de onde viemos. Depois da recordação dessas nossas antigas conversas voltaremos às preocupações de Alain.
Dia 12/06/10.

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