sábado, 5 de junho de 2010

MEDITAÇÕES, ALAIN (II)

INTRODUCÃO

1-Um conhecido, com veia filosófica, contou uma visão ou sonho. Viajava de trem, sentado do lado da janela, contemplando a paisagem. Vales, colinas, pastagens, outeiros e gente que vez por outra caminhava nas estradas. De repente, olhando firme através do vidro, respingado de gotas de chuva e flocos de neve, deparei-me com um monstro horrendo, de patas enormes, chifres ameaçadores, dentes ferozes à mostra, passeando sobre a paisagem. Olhei com mais atenção. Era uma vespa que pousara na vidraça. Esse curto momento de erro e engano me encantou. Os encontros inesperados tecem a beleza da existência.
Comentava então o bom filósofo. A verdade nos engana sobre nós mesmos. E o erro nos ensina bem mais adequadamente. Parece que todas as visões da história poderiam ser entendidas segundo esse exemplo simples. É uma felicidade (bonheur) surpreender nossas convicções velhas ou novas descobertas lá nas origens do nosso hábito de cismar.
Essa imagem ou pano de fundo serve de aperitivo para entender o sentido da pesquisa aqui empreendida.
Convém parar a roda do tempo, a fim de entrar num clima de reflexão. A doideira da rotatividade, da chuva de estímulos e da vontade de agarrar tudo num instante impede o pensar a origem, o percurso e a finalidade da existência. Parece que a procura da essência das coisas só acontece com as mentes dos maduros ou dos idosos que abandonaram a ânsia de dominar o mundo e os nossos vizinhos no planeta.
2- Em geral nós conhecemos as coisas através de vidraças. Não é possível contem-plar o sol sem lentes escuras. Para embaralhar o nosso conhecimento não é necessária a presença de uma vespa, pois antes de ela aparecer só chegávamos às coisas, através de uma vidraça. E mais ainda: essa vidraça se movimenta e nós no trem.
Essa pesquisa não pretende ficar só na instabilidade da vidraça que deforma o meu olhar. Vou além. Ultrapasso os borrões que embaçam o vidro em movimento. Quero acrescentar também a procura do lugar onde se situa a imaginação sobre a vidraça. Ela, também em movimento, deforma a realidade. A imaginação pertence ao movimento psíquico de conhecer.
Na verdade a vidraça seria eu mesmo. Parece que todo o movimento que faço, intencionalmente ou não, agindo por emoção, se estou com medo, se me altero pelo ato de respirar ou pela circulação do sangue, tudo isso modifica as imagens que durante a vida vou construído sobre o real, fora de mim. Será que se pode falar de erro nesse caso?
No fundo, os movimentos intemperantes ou exagerados, que o doido chega a produzir, levam-no a não saber onde está, o que deseja, o que vê e nem o que faz.
É bastante claro que, nesse sentido, nós todos somos um pouco malucos. Não é só por isso que as idéias aqui expostas nem sempre são claras e distintas.
3-A sabedoria, enquanto possível, tenta arrebatar do nosso conhecer todos os traços de nós mesmos, enfim, de nossa subjetividade. Chegar até ai parece ser o procedimento da ciência rigorosa. Chegar lá, não sem sofrimento, é o que faz compreender a ordem do abstrato haurido do concreto, que somos obrigados a admitir. É desvendar, inicialmente, em clima de contínuo espanto, quantidades e distâncias entre as coisas e seus sinais e depois, os movimentos, os efeitos dos choques e das descobertas, as combinações químicas de nosso íntimo. Tudo isso nos leva a entender penosamente um pouco dos movimentos da vida, até alcançar as nossas próprias paixões. Então se observa que a causa de nossos erros não foi eliminada senão provisoriamente. As perturbações do sujeito que conhece continuam participando das verdades positivas. Pelo que foi narrado, parece que tudo seria verdadeiro, mesmo as extravagâncias de um demente, se um dia soubéssemos tudo. Imagino que se esse dia chegar para alguém, ele poderia ser chamado de deus.
05/VI/10

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