MEDITAÇÕES-XXIV-PRIMEIRO LIVRO-ALADIM
Quinto capítulo
TRABALHO (pág.38 a 42)
1- Enquanto não tem obrigação de trabalhar, a criança é idealista, assim como qualquer adulto infantilizado. Há muitas profissões que acreditam mais na lâmpada de Aladim e nas súplicas. Balaoo tenta explicar a seu irmão Gabriel que comida se troca por dinheiro. Uma lição de moral e de boas maneiras. E o Duque de Villeroy sabia que a moeda se ganha com trabalho de sol a sol? As crianças não conseguem entender que os tesouros de Aladim são frutos do trabalho. Berkeley achava que o mundo chamado exterior não passava de produção semelhante à de um santeiro (imagerie) internalizado. Mas depois de uma viagem de barco, o bispo voltava para o jantar. Quem preparava a refeição? Quem comprava os cereais? Na viagem de barco, quem remava? Quem erguia as velas? Por isso é que se distingue viagem de viajantes. O mundo imaterial de Berkeley e de outros não se dava bem com a realidade de um banquete episcopal. Por sua condição, a criança é apenas um passageiro, sem nenhuma incumbência na condução do barco. Seu trabalho, próprio e limpo, é crescer como os lírios do campo.
2- Maine de Biran lembra que um objeto que oferece resistência ao meu toque manual desperta em mim alguma sensação. A existência de algo é fruto de trabalho das mãos. A ação de ver é idealista. O tocar, resultante de esforço e trabalho ativo, leva-nos a experimentar o real. Maine de Biran, brinca Alain, estava no bom caminho, mas o esforço ainda não é trabalho e a ação do filósofo ainda deixava alguns sinais de magia.
3- Há pessoas que levam em conta a realidade que oferece resistência aos nossos sentidos, principalmente o tato. Outras se contentam com a vista, pouco notando que a realidade está perpetuamente em movimento e por isso suas visões se reduzem a retratos instantâneos. Por derivação, observem-se as diferenças entre um viajante de um alpinista. Viajar é trabalho, ainda que o viajante seja conduzido? O alpinista trabalha e sente a mudança da paisagem. Há proporção entre trabalho e mudança? O interessante é que por ai se encontra ai uma aparência que lembra os contos (pág.41). Contos, santeiros, súplicas, jantar episcopal, lírios do campo, trabalho e dinheiro. Um caldo de conceitos. Depois de algumas reflexões talvez se possa dizer que onde funcionam as vísceras, os braços, os instrumentos, a terra que resiste à enxada, o que se deduz é algo bastante antagônico ao idealismo. O agricultor sente a diferença entre o ato de lavrar e o surgimento de uma lavoura. Esse resultado não depende de lâmpada de Aladim. O mundo não é mais jogo ou brincadeira. E trabalho não é brinquedo. E do trabalho surgem dois conceitos correlativos: PODER E NECESSIDADE. O que é necessidade para Alain? E se um dia o agricultor encontrar um tesouro em suas terras começará a sonhar, tornando-se um mágico.
4- E a conversa continua na próxima semana. Viegas
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
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