MEDITAÇÕES XXII
PRIMEIRO LIVRO – ALADIN
QUARTO CAPÍTULO –SÚPLICAS (pág. 36 a 38)
1- O contexto é a relação entre realidade, imaginação, palavra declamada e reflexos no corpo. O real da imaginação se manifesta em algum movimento do corpo. Ele não disfarça. A arte de nomear e chamar é a mais utilizada. O objetivo da trama evocativa orienta-se para o futuro que aconteceu há pouco. O engenhoso roteiro prende a nossa atenção para o que há de suceder. O que se anuncia no texto é sempre o que se dará. O predizer é criativo. O encantamento é a lei da poesia, palavra que significa criação. Esta magia, o poder de produção da palavra, é assimilada experimentalmente. O fato de a criança chamar alguém e ele aparecer transforma-se, no adulto, em espetáculos de prestidigitadores ou feiticeiros. Eles fazem as coisas desejadas aparecerem e somem com as indesejáveis.
2- Afirma-se por aí que conhecemos todas as coisas através do convívio humano. Alan acha essa ideia bastante nebulosa. Ela estaria ancorada em evidências abstratas. Um exemplo é a demonstração da imortalidade da alma. O mesmo tipo de raciocínio se aplicaria a falta de condições reais para a invenção (criação) de deuses, praticada por adolescentes e adultos.
3- Outra advertência importante é que crianças e às vezes os adultos enxergam por todo o canto o querer caprichoso de algum humano. Isso é verdade por atacado. Olhando profundamente, percebe-se que esse conceito é totalmente falso. Adultos e crianças não vêem o mundo como ele se mostra ou como ele é de fato. Mas o discurso, recitativo, poesia ou oração, cria um outro mundo, povoado de coisas, animais e de seres humanos e de tudo o que se pode chamar pelo nome. Um mundo que nunca se mostra.
4- Para a magia, Alan tenta explicar-se, é indiferente o objeto evocado.A ligação resulta do vocábulo pronunciado com a coisa invisível. Essa maneira de agir, a evocação, mostra um poder imperioso e imperial sobre a realidade nomeada. Essa experiência é a primeira para todos os seres humanos. Antecipando um pouco o assunto, pode-se concluir que não é menos mitológico querer mudar, por palavras, um homem do que mandar a água brotar de uma pedra.
5- O mundo real dos homens é o que ele é, cego e surdo como os rochedos e sua transformação requer habilidades, roldanas e alavancas, isto é, instrumentos, experiência e trabalho. E isso não se descobre logo, e contudo é sabido mais depressa do que acreditado (cela est su plutôt que cru). Acredita-se no texto declamado. Compreende-se melhor porque uma aparição é o anúncio de uma aparição, e por isso a repetição deve ser feita nos mesmos moldes. Reparem-se os ritos. A criança faz questão dessa fidelidade. Parece que o objeto faz parte da frase evocativa. Os contos são relatos de súplicas atendidas. A palavra garante-se a si própria. Essa é a sua força. E a psicanálise ?
6- Nada falta a história de Aladin e sua lâmpada maravilhosa. Ali se retrata o mundo infantil. Riquezas e coisas deliciosas estão guardadas ou escondidas. O que se requer é chave para descobri-las. Chamar o encarregado, mesmo sem dar-lhe importância como esfregar uma lâmpada, é a solução. Para criança esse processo se utiliza da física dos sinais. Na vida adulta, haja sinais e fricções de lâmpadas. Esse grupo mágico de gênios poderosos passa a cortejar deuses superiores ou neles se transformam. O teólogo, que se recusa a esfregar a lâmpada não tem razão de se achar razoável. Ele não o é bastante. Entenderam?
7- Próximo encontro: o trabalho, quem é que o aguenta? Texto postado sem revisão do Viegas. Patrícia Lucena.
sábado, 15 de janeiro de 2011
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