sábado, 11 de dezembro de 2010

MEDITAÇÕES XIX

MEDITAÇÕES-XIX-PRIMEIRO LIVRO-ALADIN
Terceiro Capítulo
APARIÇÕES E APRESESENTAÇÕES (pág.32 a 34)
1-CARREGAÇÃO
Foi na era do Limbo? De acordo com os ritos católicos, quando se batizavam recém-nascidos, chamava-se de Madrinha de Carregação ou de Apresentação aquela pessoa que levava nos braços o bebê até a pia batismal. Antes de um ano de idade a criança é sempre transportada de um lugar para outro por alguém ou em algum veículo, pois não dispõe de autonomia ambulatória.
Os adultos tentam mostrar à criança uma coisa ou outra, murmurando palavras, chamando-lhe a atenção para fragmentos do mundo exterior. Mas geralmente ela não apresenta interesse e até fica com um pé atrás. Ela se sente muito deslocada com os detalhes do seu entorno, por isso raramente acompanha a intimidade do palco em que vive. Será que o desenvolvimento das crianças de hoje é muito diferente daquele do tempo do Alain? A pensar. Veja o tempo de abrir os olhos, secreções na cabeça, enfaixar o bebê e o seu umbigo...
De qualquer modo, as coisas aparecem e desaparecem por força de uma vontade estranha. A apresentação do mundo é algo fantástico. É essa a realidade da criança. Ela vê tudo pronto para seu uso e consumo. O consumismo atual seria uma doença infantil? E quando, explorando o mundo por sua iniciativa, encontra obstáculos, eles são vencidos magicamente. Alguém abre uma porta ou a caixa de brinquedos.
Nesse percurso percebem-se coisas escondidas e vivem-se ausências da realidade, provocadas por curtos adormecimentos em qualquer lugar e hora. É um jogo de esconde-esconde. A visão é idealista, lembrava Maine de Biran, sobretudo para quem vive longe do paraíso. O quadro da natureza aparece para a criança de acordo com as informações dos adultos.
2-O mundo da criança toma consistência através dos seres que a envolvem: mãe, pai, parentes e auxiliares nas tarefas de criação. Tudo depende desse grupo ou de seus substitutos. Cada personagem dessa turma desempenha um papel e ao mesmo temo pode sinalizar alguma proibição. A conclusão que se pode tirar é que o mundo das bruxas e dos feiticeiros não é inicialmente imaginário. O aparecimento das coisas está subordinado à magia dessas figuras e de suas tramas.
3- O talento importante de Fausto é o de convocar o diabo, chamando -o pelo próprio nome. Essa proeza não nos surpreende tanto quanto gostaríamos. Mas nós nos recordamos de quando pronunciávamos o nome das figuras mágicas e poderosas que conviviam conosco , elas surgiam para e desempenhar a função que lhes cabia: abrir uma porta, trazer a chupeta, pegar um brinquedo no chão ou algo parecido. Quando falo que nos lembramos (nous nous souvenons), eu digo muito, pois essa recordação (souvenir) faz tornar presentes coisas e ao mesmo temo pensar que elas não existem e não existirão mais. Por outro lado a magia que nos era natural, e que assim ainda continua em parte, permanece como a trama de nossos conhecimentos os mais positivos, isto é, alcançar algo pela evocação de sinais. Essa magia nos é familiar, como saber do apartamento do nosso vizinho, sem pensar que já o vimos ( et c´est plutôt mémoire, que souvenir).
Por isso as ficções, os contos de fadas, nos são familiares e estão presentes, ainda que não estejamos atentos a outro lado da existência e ao avesso de tudo.
4- Uma boa pergunta. O que é o real? E m oposição às cenas da vida, o real é o que é esperado. Ou talvez seja o que pode ser esperado, o que é obtido e reencontrado, através de nossos movimentos próprios. Auto-suficientes? È o que pode corresponder à nossa potência ou atividade. E o estudante, o experimentador, o atleta e aqueles que pesquisam recomeçam e repetem os seus exercícios, em busca do real, o êxito e o resultado. Nada mais aparece, na área do conhecimento e das conquistas, se não houver um instrumento de captação, capturação ou recuperação.
A criança não se preocupa com o produtor de leite ou o fabricante de bolo, enquanto o adulto descobre que precisa suar o rosto para defender o pão de cada dia, contemplar a beleza do céu estrelado, ouvir a música do vento e das aves ou assistir as palhaçadas do teatro existencial.
5-FRANÇOIS-PIERRE-GONTHIER MAINE DE BIRAN (1766-1824) nasceu na França. Ele estabeleceu ou acentuou a distinção que lhe parecia fundamental entre as impressões passivas (provocadas pelo mundo exterior ) e as ativas ,( que resultam de atividades internas). É um dos exploradores dos poderes do corpo, às vezes ignorados por muitos pensadores. Até Terça-Feira, dia 14. Viegas

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