segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

MEDITAÇÕES "D"

MEDITAÇÕES SN/ D docx
(para o dia 28/12/10)
DEVANEIOS- I-
1-O quarto capítulo do ALADIN leva o nome PRIÈRES. Ao tentar traduzir o vocábulo, surgiram algumas indagações que me pareceram relevantes. Por isso chamei de DEVANEIOS I o título de nossa conversa. Seria uma introdução explicativa ao choro das crianças, de sua evolução e de suas variações. O choro dos cavaquinhos e do restinho de pinga no copo (dedicado ao santo) seriam também corruptelas nos adultos das súplicas e rogos infantis?
2-Há uma controvérsia, um tanto equivocada, no seio de recentes confissões religiosas pentecostais, sobre o uso ou abuso dos verbetes rezar e orar. Alguns fundamentalistas evangélicos recusam o emprego da palavra rezar, achando-a carregada de conteúdos ligados aos rezadores, macumbeiros ou adeptos de cultos africanos. Esse é o fato. Alguns evangélicos oram a Deus, enquanto os católicos rezam a Deus, a todos os santos, parentes e amigos falecidos. Ambos pedem ou suplicam o atendimento de necessidades básicas, tais como saúde, trabalho, o pão de cada dia, amor, paz, segurança e alegria.
Os vocábulos rezar e orar, derivados do latim, significam praticamente a mesma ação. A boca, oris no genitivo latino, é a origem. Então temos orar, oral, oralidade, oração, orador. Orar é produzir sons pelo orifício bucal. Rezar, verbete pejorativo para alguns, deriva também do latim, RECITARE, que significa falar ou ler em voz alta. Será que nas escolas, que se chamavam primárias no século passado, ainda se promovem recitativos em dias de auditório? Encontram-se, em algum recanto, senhores e senhoras, rezando e benzendo com ramos de arruda, para afastar espíritos malignos, curando vento-virado ou maus olhares. E as palavras mágicas, mais atraentes quando pronunciadas em língua estrangeira, tornam-se chaves de curas. Há reza para tudo. Recentemente alguns surripiadores de verbas públicas, em Brasília, oravam ou rezavam em grupo, agradecendo aos deuses, o troféu de propinas. É lamentável constatar que religiosos, de todos os credos, rezam ou oram, benzendo armas e soldados que marcham para guerras de conquistas.
3-Rezar ou orar evocam o mesmo ato. O começo dos pedidos, súplicas ou preces, é o choro ou grito das crianças, quando sentem dor, fome, frio, medo de escuro ou de desconhecido. E o som, que sai da boca, oral, choro, grito ou rogo, com o tempo vira palavras articuladas e arbitrárias, aperfeiçoando-se em versos cadenciados, com rimas, recitados ou cantados, chegando até as aleluias e coros retumbantes, ecoando em praças e catedrais.
4-A reza e as orações não se esgotam em palavras eivadas de gentileza. Elas se estendem a praguejamentos, blasfêmias e ataques a desafetos. “Raios que o partam”, palavras mágicas para expulsar demônios e termos de baixo calão fervilham em todas as línguas. Mas também se transformam em sons poéticos e maviosos que se aventuram a descrever o indizível e a criar explicações que não são comprováveis e a inventar um jeito de conviver nesse universo misterioso pouco interessado na felicidade dos habitantes do planeta terra.
5-Há um campo imenso ocupado pelas palavras que descrevem a estrada da felicidade e a vida depois que as cinzas de nossa origem voltam ao pó de onde vieram. A humanidade se sente confortável navegando nesse espaço, matando e morrendo por ele.
6-Ouça o choro de uma criança. Veja as lágrimas que lhe rolam na face. Encare os seus olhos indagadores e curiosos. A criança pede o que lhe falta. E sempre falta alguma coisa, necessária ou fútil, possível ou impossível. Não há mãe que baste. É imperioso aceitar que a necessidade, sobretudo quando se constata a limitação dos pais e adultos, vira um grito, uma demanda, uma súplica, uma prece solicitando socorro. Seria perigoso pensar que quando se manifestam a fraqueza e a impotência das palavras e dos socorristas humanos, surge o habitat dos deuses? Antes de um esforço racional para se demonstrar a existência dos deuses, a partir da procura de uma causa do universo, a necessidade humana, real ou imaginária, já tinha imaginado a existência de deuses para o bem e para o mal. E o pior: muitos transformam os seus deuses em serviçais de prontidão e às ordens, para resolver seus problemas até os mais banais. Deus vira um empregado sem carteira assinada, sem férias e sem os benefícios trabalhistas. E porque é invisível e não costuma responder as aleivosias dos mortais, recebe xingamento inomináveis.É pior do que mãe de juiz de futebol.

Nenhum comentário:

Postar um comentário