MEDITAÇÕES –VII –
(págs. 19 a 20)
1 – Vamos conversar sobre crenças e dúvidas. Algumas pessoas acreditam que estão capacitadas para duvidar de algum relato, escrito ou falado. Mas nós somos mal preparados para a atitude de duvidar. O objeto de um relato é justamente aquilo que falta. O relato se refere a algo que, pelo menos, no momento da narração, não está presente. Por isso é impossível tornar esse objeto um fato experimentável. Os debates sobre tais relatos, como na tradição escolástica, restringem-se ao exercício de confirmar se a coisa narrada é ou não possível. É a praia do possível, do impossível, do provável, do que poderia ter siso se algumas condições tivessem acontecido. Essas discussões levaram e levam a conversas ridículas ou risíveis. Lembrei-me de Sócrates insistindo que uma vida sem questionamento não é digna de ser vivida. Alain enumera vários casos, citados por Hume e Renan, decorrentes de crenças simplórias e também do excesso de dúvidas. Pense no povo antigo, uns cinco séculos dantes de Cristo, refletir sobre a existência ou não de antípodas, numa terra que não se considerava redonda. E hoje ainda há gente dita civilizada que acredita em duendes, vivendo nas profundezas do planeta.
2- Por isso é bom sublinhar que a experiência e somente ela pode decidir sobre a realidade das coisas. Note-se que em ciência existe a figura da hipótese como método de pesquisa. Os apressados transformam hipóteses em certezas.
Quando se relata um milagre, ele não pode ser afirmado como real e nem mesmo negado. Negar um relato é perder tempo e a oportunidade de se instruir. Uma das consequências desse aprendizado é constatar o tamanho da credulidade humana e da tendência para vivenciar ilusões.
3- Mas não é dessa maneira que eu considero o espírito livre. Eu gostaria de acreditar, como Montaigne, em tudo que se narra, nos mínimos detalhes, desde que me seja reservado o direito a uma desconfiança do mesmo porte. Confiar desconfiando, como faziam os mineiros antigos. Essa atitude poderá esclarecer o tema principal do livro que é o fato de acreditarmos mais facilmente no que é contado do que naquilo que se vê. Por outro lado, o ser humano que não aprende a duvidar, corre o risco de se fechar fanaticamente naquilo que crê. O fanatismo é uma terrível limitação. Seja lá o que for,o fato é que o ser humano ainda hoje navega entre crenças primitivas e arranjos mentais sofisticados, e quase sempre inclinado a apreciar ilusões. Para muitos a realidade reside nas palavras.
NB. Mais uma vez o tema contestação foi postergado. Na próxima vez começaremos tratando de LINGUAGEM. Viegas, um crente enrustido.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
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