MEDITAÇÕES – IX -
Introdução, pág. 20 a 21.
LINGUAGEM (1)
1- De início, vamos falar apenas sobre o que se pode chamar de aspecto externo da linguagem. A linguagem é algo natural como o fígado ou os rins. Nada me fará acreditar que linguagem, usada na fala ou na mímica, deixe de revelar algo sobre a estrutura e a condição humanas. Apesar das inclinações para a dúvida, pretendo refletir sobre a linguagem dos gestos, os escritos que tentam registrá-los e também sobre o canto ou o grito modulado.
2- A marca que o homem, e também os animais, deixam na relva aonde venham a dormir, escreve mensagens. Elas ficam nos sinais que sulcam o leito. Algo parecido com perícia criminal... De qualquer maneira, essa escrita não é fácil de ser lida. É por isso que as artes plásticas carregam aspectos enigmáticos.
3- O homem é um enigma em movimento. Cada qual o é para si mesmo. Os vestígios do ser humano permanecem, às vezes, indeléveis, nas suas pegadas, nas abóbadas e nos templos. A passagem do ser humano no espaço terrestre não se afigura como tabula rasa. E sobre esses rabiscos e sinais os pesquisadores irão meditar interminavelmente. Eles assinalam um momento do racional. E esse é o objetivo principal do presente livro.
4-Esses sinais mais relevantes são realmente deuses. Não quero afirmar que os vestígios do vivente humano nada tenham a ver com sua verdade ou história. Nem que o homem seja sempre divino em suas atividades. Em algumas, brilham a comicidade e a farsa. Não estou aqui falando sobre a verdade do homem e de sua história.
5- As grandes obras são aquelas que se tornaram centro de orações, de milagres e de peregrinação. O fiel ou devoto, perante essas realizações do homem, fica extasiado. Nesse lugar e momento, ele se reconcilia com a sua verdadeira, para ele, condição. E empolga-se para descobrir um caminho que possa levá-lo a uma vida melhor, a seu modo de ver.
6- Essas obras-primas se conservam e os artistas procuram imitá-las, isto é, figurar aquele instante do homem e de sua verdade, em réplicas de acordo com seus próprios recursos. Mas a inveja produz apenas imitações sem vida. A admiração talvez possa realizar, por outro lado, respeitáveis obras-primas. As cópias imperfeitas se denunciam por si mesmas, ainda que a história possa descobrir, nelas embutidas, verdades profundas que revelam qualidades do ser humano. Mas o que essa digressão teria a ver com a linguagem? A resposta é simples: tudo. Gestos, pegadas, gritos modulados, esculturas, pinturas rupestres, tudo é linguagem. Cada ser humano usou e usa para se comunicar o que lhe é accessível, em cada fase da história.
7- Mas a linguagem falada ou cantada contém mais aspectos obscuros e enigmáticos. Isso fica para a próxima conversa. Então ficam na reserva: Linguagem (2), Contestação e outros autores citados. Viegas
segunda-feira, 19 de julho de 2010
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